Ando levando uma vida relevantemente "arrotinada". Meus compromissos pela manhã, meu almoço (ou falta dele), meus compromissos pela tarde, lavar a louça (mesmo que não tenha participado do almoço, mas meu estômago não se incomoda mais com o fato de não ser tão bem tratado como deveria), algumas vezes descansar um pouco e ir às minhas corridas/caminhadas diárias. Essas são meu ponto de equilíbrio num ciclo que não existem arestas. Volto para casa, uma ou duas horas depois, entro em um morno e merecido banho e aí entro em um ponto crítico de minha rotina. A noite. Nunca sei o que fazer dela. Normalmente ela é a espera do próximo dia, dos compromissos diários e da corrida vespertina. Às vezes saio, às vezes leio, às vezes saio para outros lugares que não os primeiros, às vezes converso, às vezes durmo e algumas outras tantas vezes entro num estado de não-sei. Esse último é o pior. Simplesmente não sei. Aflitivo. Desesperador. Angustiante. Cíclico.
Mas nem sempre o ciclo segue seu ritmo normal, ele não é um ciclo muito católico. É um ciclo aleatório, está macumunado com o sarcasmo inerente ao mundo, sarcástico por sua própria natureza (ou pela natureza dos Homens). Então algumas vezes saio de casa já com a angústia me corroendo o peito por dentro, o coração batendo tão forte, mas tão forte, que parece acelerar a deterioração do meu peito iniciada pela angústia, e e nesses dias não há nada que resolva, então saio correr, sentir a brisa suave batendo no meu rosto e me fazendo sentir, por mais leve que seja, viva. Ou então o cheiro do verde dos caminhos por onde passo, cheiro esse que não deixa nenhuma dúvida de que ainda existe espaço para os cheiros de vida. Mais ainda, a cor do céu, que se muda lentamente do azul claro salpicado de distantes nuvens brancas para o alaranjado despedir do sol, onde essas mesmas nuvens distantes se vão tingindo de sangue e de metálico cinza da partida, final, impiedosa, do dia. Então o azul vai dando lugar a otras cores, outros cheiros, outros sabores e outros desejos. Antes mesmo de voltar para a minha rotina, o céu já não é mais o mesmo: já está escuro e salpicado de esparsas luzes frias. E aí me vem a sensação de que, por mais que esteja sozinha, não sou a única. O vento, o cheiro de verde e as estrelas também o estão. Acabo minha jornada, de uma ou duas horas, e volto para minha casa, meu banho, eventualmente meu jornal das 8 e a espera do novo dia e dos velhos afazeres.
Ciclos, ciclos e mais ciclos. Não importa como são, são sempre ciclos e não podemos fugir deles, por mais que encontremos, ao menos por alguns segundos, uma idéia de harmonia. Não podemos fugir deles. Os ciclos fazem parte de um jogo, um jogo que, de uma maneira ou outra, fomos obrigados a fazer parte, um big brother sem contrato, um jogo onde não há vencedores, somente os jogadores incautos. A única regra é não ter regra (o criador do jogo não se deu a essa delicadeza). Não há perdedores, não porque todos somos vencedores, mas justamente por não haver vencedores. Alguns saem antes, outros depois, mas invariavelmente, todos sairemos do jogo. E por ser um jogo, não há sentido. Talvez algum temporário, fugaz, mas o que é temporário e fugaz não é permanente, muito menos pertinente. Então, não existe sentido. Mas quando sinto a brisa quase fria do outono, o suave calor do sol ao se por e as primeiras estrelas saindo no céu ainda do entardecer, tenho certeza de que é um jogo e de que não existe sentido.
E isso me conforta.
E volto à minha rotina.
Mais um, entre tantos ciclos, entre todos os ciclos.
Culpados
Há 16 anos
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