No começo, era engraçado. Quando começou a acontecer, era mais pra mim como um jogo; era divertido. Sentia-me privilegiado, especial. Sabe, é engraçado como as pessoas tendem a dar tanta importância a coisas irrelevantes; e da mesma forma, não consideram o que realmente importa. Sentia um certo orgulho em ter conseguido perceber essas coisas.
Mas com o tempo, a coisa foi mudando de figura. Começou a ficar pesado, muito pesado. O jogo perdeu a graça, a diversão havia acabado. Conhece aquele ditado que diz que “a ignorância é uma bênção”? Pois é, acredite nele, meu amigo. Desculpe o atrevimento em chamar-lhe de amigo. Acontece que não tenho mais amigos, afastei-me de todos eles. Não conseguia mais suportá-los. Mas amigos fazem falta, muita falta. Então considerarei qualquer um que encontre esta carta e disponha-se a lê-la como um amigo. Com certeza, perder uns minutos ouvindo o que eu tenho a dizer é a coisa mais sincera que alguém fez por mim em muito tempo. Desculpe-me interromper o pensamento. Voltarei a ele agora. Como eu dizia, evite saber demais, meu amigo. Quanto mais se descobre, irremediavelmente mais insuportável torna-se a vida. Com o tempo, percebi que não era privilegiado; eu, na verdade, era amaldiçoado. Eu, que durante toda minha vida quis saber demais, não pude suportar quando meu desejo foi realizado. Talvez por fraqueza, talvez a situação seja insuportável pra qualquer um. Jamais saberei. E não tenho interesse
Não suporto mais julgar as pessoas (sabe, meu amigo, quando se é como eu, isso é inevitável), não suporto mais ser julgado pelos que sabem o que sou (por isso afastei-me de todos) - não podia mais suportar os olhares: o de desconfiança, o de desprezo, o de medo... Para resumir, a vida tornou-se insuportável. Como o destino não se encarregou de acabar com ela, eu o farei. Eu realmente tentei, sabe? Mas finalmente, eu desisti. Obrigado por ter perdido seu tempo lendo esta carta. Como agradecimento, revelarei o que sou. Pela primeira vez sem medo - já não estarei mais aqui para ter que suportar o seu olhar de desconfiança, de medo, de desprezo...
Eu leio mentes.
No começo, era engraçado...
*jammed: João Rafael Romero Reato - O suicídio do leitor de mentes
1 comentários:
huashuashuhusa... e eu q nem escrevo pra ngm ler mesmo. me afastei de tudo!
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